- Sete e meia! Tô muito atrasado! – Levantou quase em um
salto e logo foi ao banheiro, e tomou banho, e colocou as roupas, e escovou os
dentes, e ...
- Acorda – dizia uma voz suave e sonolenta ao outro lado da
porta. Foi então que ele entrou em completo desespero, como chegaria a tempo se
nem ao menos sua mulher estava pronta para sair. Abriu vorazmente a porta e deu
um grito estridente:
- Vai se arrumar logo, já são 7h 40!
Pasma com o que ele dizia, ela olhou-o nos olhos e disse que
não estavam atrasados, eram apenas 5h40. Como poderia querer sair mais cedo? Um
pouco mais e estariam madrugando no carro!
A princípio ele não entendeu e fingiu estar preocupado em
pelo menos uma vez, naquele ano, tomar um bom café da manhã. De fato, era algo
que a muito não fazia, no máximo uma bolacha água e sal e... água, era tudo
mais água do que sal. Na verdade, ultimamente, tudo era muito água, sentia-se
até meio perdido, boiando à deriva na vida. Isso lhe causou um certo enjoo, um
certo medo, teve de se sentar.
Sentado na beira da cama, enfim, entendeu. Havia lido as
horas de forma errada. Nunca acontecera! Desde as “aulas de ver horas” no “prézinho”
tinha se tornado mestre na arte de responder de bate pronto o que os
ponteirinhos indicavam. Quando saia com sua avó para ir à feira, aguardava ansiosamente
que alguém lhe perguntasse que horas era, para que pudesse - olhando com seus
pequeninos olhos aquele vidro grande e redondo - dar as horas. Na falta das
pessoas “des-horalizadas”, muitas vezes, puxava a saia de sua avó, como se
pedisse para que ela perguntasse. Ela, entendida das manias de seu neto, o
fazia com muito gosto e não cansava de bajulá-lo.
Tudo aquilo era muito lúdico para ele, lembrava que adorava
ver no relógio de seu pai o reflexo de sua iris, e acompanhar o ritmo
harmonioso com que os ponteiros se mexiam. Alguma lei, que não conhecia,
deveria ser responsável por toda aquela precisão. O mundo, naquela época, tinha
poucas leis. Fora até aquele físico inglês que dissera pouco existir para ser
elucidado. É... as coisas não eram assim, tudo tinha mudado, agora as coisas
eram tão cheia de regras e leis. Talvez fosse bom, deveria trazer mais
segurança. Mas não era isso que acontecia.
Olhou a sua volta e viu que pouco sobrava dos seus sonhos de
menino relojoeiro. No quarto onde um dia pensou dominar tempo era dominado por
ele. E a vida, que costumava refletir no redondo de seus olhos não estava mais
ali. Não, não lera as horas errado, tudo estava errado, o mundo estava errado.
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