"Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra/ e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer" - Carlos Drummond de Andrade

sábado, 4 de abril de 2015

Nadando no tabuleiro da vida

"Porque sou tão feio" -- perguntava-se todos os dias na frente do espelho quando escovava os dentes. Pensava consigo: "mais um dia, mais uma reiteração" e aos poucos concordava mais com o que dizia, mergulhando mais e mais nessa dúvida. Seu subconsciente conversava com ele, quase como sussurros em seus ouvidos que lamentavam, e muito, o fato de não terem sido notados antes de seu nascimento. Agora já estava feito, não haveria retornos naquela estrada inefável.
Independente disso, para ele não estava certo o porque tinha sido tão infeliz nas escolhas feitas pela vida: não se destacara, ao longo dos enfadonhos 22 anos, em absolutamente nada. Ou melhor, destacava-se em sua feiura. Mas além disso era um incógnito, desajustado, perdido. Um pião num mundo de reis, rainhas e torres. Seu protagonismo parava no início do jogo, dois passos e a vulnerabilidade indiscutível acompanhava. Estava no mundo com o propósito de ser útil as demais peças. Pião algum sobe na vida, ou ainda, carregado de heroísmo, reina. O grande problema disso tudo estava na ilusão da utilidade. Não era, muito pelo contrário, seus primeiros movimentos na vida tinham sido precipitados e agora o jogo era sobre adiar o checkmat e reduzir danos.
Dessas perspectiva não é difícil notar que nada o que fazia parecia o satisfazer. Contudo, talvez nesse ponto, se questionem, vocês leitores, sobre quais eram as exigências dele na vida, e diferente da mais comum dedução, Ricardo era uma pessoa pouco exigente. Só exigia uma única coisa, que sempre a ele houvera sido negada: "carinho". Todas suas relações e três jeitos versavam por aprovação e necessidade constante de cuidado. Como se estivesse a cada segundo pedindo ajuda aos outros. Sabia seu lugar não ser ali, ou melhor, sabia não ter lugar no mundo, mas por falta de coragem era a última forma que encontrava para se resguardar naquele pesadelo constante que era viver.
Mais um dia, mais uma história monótona de como não se inseria, de como era superficial, feio e burro, mais uma contagem regressiva dos dias que lhe faltavam. Entre os badalos do tempo fumava um cigarro.... Sim, já ia me esquecendo... fumava, e como fumava, três maços por dia. Para ele isso era um jogo: a culpa do que há muito desejara ficava com o curioso vício adquirido, mas a missão de resolver tudo aquilo que tinha se dado depositava-se nas sementes cultivadas a cada tragada e a cada maço. Estavam traçados os objetivos, agora restava esperar o tempo fazer seu milagre (que de milagroso não tem nada, diga-se de passagem. Falamos aqui de um homem... homem ? Menino... sim, menino! Falamos de um menino delineando seu futuro sob os traços tortuosos do sofrimento, talvez aqui notemos a brasa ínfima de lirismo dessa história).
Enfim, o vendo conduzia a fumaça que gerava vazio. Ouvia assim o oceano, os anseios alheios, mas era incapaz de ouvir a si mesmo, porque sabia seus desejos e qualquer coisa que falasse seria uma retomada forçada do sofrimento que o afogava. Estava cansado dessa sensação de afogamento, mas a deriva no mundo, em si mesmo, vagava pouco resolutivo, pouco acolhido, pouco de tão pouco, nada.

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