"Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra/ e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer" - Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Um brilho Epifânico

Ao som de Alt-J, aqueles da casa conversavam e brincavam com os anseios uns dos outros. Viajavam em busca de alívio, tentar desesperadamente sair da violência que o empirismo cotidiano lhes impunha. Como apenas mais um naquela alcateia buscava se divertir e, mesmo que envergonhado, fingia não estar receoso. Os 3/4 tinham lhe dado coragem. Com ela, foi até o quarto e arriscou ser o tabuleiro do twister. Sentia medo, vergonha, paixão e amor em uma sinestesia que jogava expirações adocicadas e um tato um tanto quanto turvante de sua visão. Sua atenção estava dividida, a amizade contrastava com a amizade, e o amor se impunha de forma passional transformando-no em tudo que ele não queria ser. Queria amar, mas de forma velada. Queria companhia, mas fingindo ser autossuficiente. Queria demais, coisas que o momento e que a vida não tinham reservado para ele. Por um instante pensou que não se odiaria, que seria útil, compreendido, autêntico e bonito. Obviamente, a corrosão da sua consciência tinha o sequelado ao ponto de limitá-lo do reconhecimento de sua inferioridade. Não era mais do que um agregado àquilo tudo e só estava ali pela misericórdia de seus amigos, mas não era essencial, muito pelo contrário, era dispensável.
O amarelado da casa refletiam o conforto que sentia, um conforto instável, mas presente. Uma luz que entrava dentro de si e, quando o braço de um dos quartos da lua que iluminavam sua vida encostou seu corpo, incendiou seu espírito o expondo da pior forma possível. Bestializado e tendo expresso toda sua imaturidade em um só momento, ficou deitado observando envergonhado, reificado, enojado de si mesmo.
Retomou a si quando escutou que não era bom em nada que se propunha a fazer. Não se impunha enquanto um bom amigo, nunca seria uma boa companhia para quem ele amava, nunca seria verdadeiramente útil, mal sabia fazer risíveis massagens, o que dizer então de bons conselhos. Estava a beira de si mesmo, reiterando que nada tinha a oferecer ao mundo.
Pensou no porque estava ali, talvez seu subconsciente fosse tão raso e pífio quanto tudo que criticava. Decidiu assim que não viveria muito tempo depois, e naquela ocasião pensou em tudo que faria e como faria. Já tinha 1/4 pra coragem, duas receitas de digoxina, uma faca afiada e só precisava de mais uma receita de varfarina.  Estava definido, pronto, fechado, ou aberto e imóvel.
Não merecia aqueles que o rodeavam, muito menos as experiências sensíveis que teve. Ao mundo não podia retribuir o pouco que vivera longe da vergonha, do medo e da inferioridade. Podia apenas deixar de usurpar dos úteis a experiência sensível, e deixá-los gozarem sua existência. Ele não tinha esse direito, nunca tivera. Estava fadado a ser para sempre ele mesmo.

Desculpa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário