"Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra/ e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer" - Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Autoanálise


Juntavam-se os cinco amigos naquela rodinha, todos esperavam ansiosos para fumar um pouco de maconha e sentirem-se anestesiados da vida pelo menos um pouco. Ele não era diferente, mas sempre se sentia diminuído quando fumava, desaprendia o pouco que lutara para conquistar e sentia-se tão raso como nunca. Seus amigos brincavam que nunca falava algo plausível com a situação quando fumava, sempre estava muito a quem das circunstâncias e isso só trazia mais desconforto para ele. Independente disso, fumava, na expectativa de que o THC o fizesse ser mais completo e inteligente do que era. Óbvio que isso era uma expectativa frustada por natureza, mas em uma raro momento buscava arriscar. Raro porque quase nunca arriscava, ou melhor, o fazia com frequência na verdade, mas não era um arriscar associado a emoções e experiencias, era um arriscar focado no poder autodestrutivo.
Bom, depois daquele momento coletivo, todos resolveram ir a uma balada famosa no centro da cidade. Estava ansioso, as cores soturnas do centro da cidade a noite somadas a iluminação amarelada das avenidas e praças, faziam-no um pouco mais confortável com tudo, se é que isso era possível. Lá chegando gostou do ambiente, mas não se sentia realmente pertencente àquilo tudo. Na realidade, sentia-se totalmente dispensável diante daquela situação. Ou talvez não só daquela, mas de todas, invariavelmente não via qualquer despertar de interesse nas pessoas quando falava, os olhos de seus amigos não mostravam nenhum brilho ou muitas vezes nem sequer tangenciavam os seus. E nesse sentido era calado na maioria dos momentos. Partia do pressuposto de que a falta de comentários pertinentes velavam o assunto àqueles que pudessem enriquecer a conversa, e assim eram raras as vezes que intervia. Aquela noite, não diferente, ficou calado por horas, mesmo na companhia de seus amigos. As vezes fala onomatopeias sem sentido, que pela falta de habilidade em falar, o jejum de comentários, saiam todas de um jeito estranho, meio que tateando o ambiente inóspito com medo, palavras trêmulas que mal conseguiam movimentar as partículas a sua frente. É... talvez por isso poucos escutassem sua voz. Se é que era sua voz, não tinha certeza se aquele era ele mesmo, ou uma tentativa desesperada de contribuir com algo.
A certeza de ser desinteressante. Pensava em lapsos momentâneos que interesse deveria ser uma coisa variável não só entre pessoas, mas entre momentos. O empirismo com convívio diário, entretanto, mostravam-no o contrário. Não se adaptava a nenhum ambiente e por isso sentia-se inferiorizado. Boa parte de sua vida tinha sido uma luta na busca de admiração seja ela qual fosse, escolhera sempre os caminhos mais difíceis como numa tentativa de provar-se importante para alguém. A fama de estudioso, a multiplicidade de espaços que ocupava, a proatividade em ajudar os outros, a própria carreira que escolhera, sempre uma tentativa exaustiva de ser útil a alguém, em algum momento e em alguma coisa.
Carla não parecia sentir-se bem, encostava no canto daquele ambiente vermelho e respirava fundo olhando para baixo. Ele logo pensava em muitas coisas, no que poderia dizer, mas tudo que saia de sua boca eram as fáticas orações: "Está bem ?" e "Posso ajudar em algo". Passava a mão em suas costas mostrando afeto. Era sempre assim, uma das poucas coisas que o completava era sentir-se útil mesmo frente a sua ignorância. Houvera uma época em que se empenhou profundamente na busca de curiosidades, tinha a ilusão de que isso fosse fazê-lo mais palatável aos seus amigos. Sabia coisas sobre os mais diversos assuntos, mas que não eram mais profundas que um prato de sopa.
- "Estou bem, só enjoada, deve ser o álcool".
Tudo era ainda mais torturante porque admirava Carla, ela representava tudo aquilo que ele não era, ela tinha o que mais almejava: despertava curiosidade e fazia-no querer ser igual, além disso obviamente era uma pessoa muito bonita em todos os aspectos, invariavelmente não era só ele que pensava isso, entretanto o que importava de fato era aquele jeito singular com que sempre acrescentava algo inusitado as conversas. E aquele sorriso associado ao olhar pensativo criavam interesse. Será que podia copiá-la ? Não saberia fazê-lo com perícia, muito provavelmente não despertaria a curiosidade nem de si mesmo. A curiosidade... essa não tinha perdido ainda, não sabia por quanto tempo, mas tinha, por mais aquela noite, esse conforto.
- "Vamos para casa ?" - era Carla convidando as pessoas para ir embora.
Não via a hora, queria sentir-se seguro, mas tinha medo de tê-la desapontado, até porque nunca conseguia se expressar de forma contundente. Aliás, o medo de desapontar os outros era um vertente literária que seguia a risca, nascido na geração do medo, mentia para si mesmo e buscava ter múltiplas experiências, fingindo ser indestrutível. No fundo, entretanto, só o fazia porque tinha medo. Como Drummond registrara "sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas". Bom, esses eram seus pais, ele era da geração mais diretamente afetada, não vivera a época do medo, o que não anulava o fato deste estar impregnado em seu ser, como se transmitido hereditariamente pelas gerações. Se bem que isso fazia sentido, sentir medo era um mecanismo de defesa, tinha seus motivos para acreditar que tivera dado vantagens adaptativas. Não dava mais, pelo contrário, aquela era uma geração perdida. Enfim, fato era que se preocupava demais com os outros, sentia que eles eram a única validação do seu eu. Sendo assim, haveria ao menos uma pessoa que ficaria ao seu lado para fazê-lo sentir-se não nulo, e para isso não podia decepcionar nenhum candidato em potencial. "Alteridade sintomática", a expressão acabara de surgir em sua mente, era uma boa definição para o que sentia. Sentia sintomas da desabilidade em lidar com os outros, ou talvez soubesse lidar, de forma mecânica e medrosa. Queria ser mais espontâneo e interessante. É, queria ser interessante.

Um comentário:

  1. De alguma forma, gostei, tuts, :]
    Acho que a personagem da crônica não deveria viver para ser interessante aos outros, mas ser interessante a si mesmo e perceber quem já a acha interessante. Ninguém é tão ninguém para que ninguém se interesse.

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