"Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra/ e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer" - Carlos Drummond de Andrade

sábado, 5 de janeiro de 2013

Reino de nuvens

A porta foi batida com tamanha força que gerou grande estrondo. Levava as moléculas gasosas a se agitarem de tal forma que venciam dois andares de escadas e uma porta chegando aos seus ouvidos ainda com suma potência. Aquilo era um sinal de que seu pai estava bêbado e que logo estaria em seu quarto atormentando-o com teorias abstratas e desconexas. Tudo aquilo era comum, quase que um ritual. Chilintou com o canto da boca e voltou desenhar.
Aquele ano, que acabara dias atrás, parecia que não ter terminado e trazia consigo todos os problemas que permeram sua vida no passado. A frustação de mais uma vez ter decepcionado a todos inclusive a si mesmo seguia-no por toda a parte, até quando tentava fugir da rotina para espairecer. Os desenhos, as paisagens, a própria mente, faziam chacota de sua falta de capacidade. Enquanto isso, todos a sua volta pareciam gozar de felicidade e realização. Alguns viajavam, outros comemoravam e expunham a vida que ele sonhara para si.
Estava cansado de tudo aquilo. Menosprezava seus problemas, como de prachê, por achá-los pequenos de mais, não dignos de reclamação, ficava, portanto, calado remoendo-se internamente. Diversas ideias pairavam em seu pensamento, contudo, todas pareciam não ter solução ou nexo, reduzindo-o a insignificância de seu ser. Exasperado, pedindo calado por apoio, pensava até em se matar, mas tinha certeza que no momento final falteria a coragem necessária para pular. Pulava, sim, cada vez mais dentro de suas frustações, as horas de sono superavam, agora, as horas acordado. Tudo o que queria fazer era fugir de seus problemas, já que esses não fugiam dele.
Piscava bem devagar. Então, seu pai colocou a mão em seu ombro e, como previsto, começou a construir suas teorias de bar. Ele pensou em responder, entretando, lembrava do que sua mãe pedira dias atrás - para que não respondesse a seu bêbado pai, e deixasse a solução com ela. Mais uma vez calava-se. Era um ser mudo, isso sim, desde a escola era passivo em tudo, era passivo nos relacionamentos, na comunicação, era passivo na vida. Isso custou-lhe uma namorada e uma dúzia de amigos. Talvez fosse mais feliz se falasse. Bom, talvez fosse, o que é uma hipótese, o fato era que não podia voltar atrás e nem podia pular o presente. Os presentes, que quase nunca vivia, simplesmente, sobrevivia. Queria carinho, queria ajuda. Tudo isso lhe faltava.
Por que, mesmo com tanto esforço, não tinha conseguido o que queria? O mundo era injusto. Ele havia se dedicado por dois anos, mais do que muitos, mesmo assim, não conseguira, enquanto aqueles que vira relaxados e desempenhados, tinham.
Mais uma vez seu pai colocou sua robusta mão em seu ombro. Prestes a sucumbir, levantou-se e seguiu para a cozinha, lugar o qual frequentava mais ultimamente, sempre que ficava ansioso. Em decorrência desse hábito recém adquirido, tinha engordado dez quilogramas em um ano. Isso lembrava-o que não estava feliz. A geladeira aberta parecia um lugar acolhedor. Foi, então, que jogou tudo que estava dentro: molhos, queijos, ovos, salada, manteiga... para fora, assim como um cachorro cava por seu osso, e entrou, trancando-se lá. Aquela era sua fortaleza de gelo, protegê-lo-ia da insegurança que reinava no mundo lá fora. Finalmente, sentia-se acolhido, ou melhor, protegido.
Aos poucos seu corpo perdia calor e sua respiração diminuia. As muralhas começavam a ganhar dimensões colossais em seus sonhos e ele se sentava no trono de gelo. Era rei de fato, não mais de mentira, como se acostumava a ler nas historias que levavam seu nome. Seu coração ainda deu um último soluço, pois lembrava que sua vó e irmão, os quais ainda viviam a insegurança do mundo, mas já era tarde. Estava fadado a reinar em terras invisíveis. Vivia por sua conta e coroava-se por sua conta.

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