"Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra/ e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer" - Carlos Drummond de Andrade

sábado, 20 de abril de 2013

Óptica - Newton

Aquele pequenino, que somava agora 2649024000 segundos, 44150400 minutos, 735840 horas, 30660 dias, 84 meses, 7 anos, estava resumido todo em si. Não passava de uma mera unidade e era assim que o mundo o via , era assim que seus pais o viam, as horas o viam assim, ele se via assim. Foi quando tudo ficou claro, branco como papel. Já não haviam paredes, nem objetos, tudo era em si o que em si era tudo, não mais que seu conjunto. Passava dias, horas e segundos vislumbrando o nada. Mas foi desse nada que ele fez seu mundo, edificou paredes, casas e palácios.
Pelo prisma de seus olhos - diminutos, é verdade, mas não menos inventivos - pintou pássaros e grifos nos quais pode voar, e desbravar mares, terras as quais nunca pode ir. Havia manhãs, entretanto, - ou talvez noites, não sabia - em que tudo parecia junto de novo, e as cores desapareciam, e os palácios ruíam. Eram dias de vozes e ventos inquietos, que, se faziam algo, era gerar hermetismo e sofrimento.
Naquele final de julho (ou será que era setembro), diante de uma última tempestade, o branco sumiu em definitivo. Sua mente, que fora muitas vezes tão colorida, já não era nada. Agora, tingira-se de rubro e seus sentimentos, como em tentativa de não sucumbirem a um novo regime, se pintaram de vermelho e tornam fieis servos do novo líder.
Não durou. D'onde não restava dezenas - apenas um algarismo - se fez sozinho um homem, que nunca mais voltaria a colorir.
É engraçado pensar que tantas cores, tão intensas sozinhas, e, por essência, "sujas", em conjunto resultem em algo tão "limpo" e claro. Passando por eras, muitas vezes relegada, mas que já foi base de teorias libertárias (vide as tábulas de Locke e a escrita simbolista), essa cor - ou talvez, não cor -, o branco, fez de menino um adulto.... É...realmente é inegável sua importância, e, talvez, acreditasse mais nela se não estivesse cansado do vazio que carrega. Cansado do vazio que me cega.

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